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A América de Trump está remodelando um mundo instável
A CNN examina como a política externa de Donald Trump está pressionando alianças e expondo os limites do poder americano durante um período de crises globais crescentes.
Donald Trump está se preparando para discursar na ONU enquanto o sistema internacional enfrenta guerras, dificuldades econômicas, desastres climáticos e uma ansiedade crescente em relação à inteligência artificial. No entanto, em vez de atuar como uma força estabilizadora, os Estados Unidos estão contribuindo cada vez mais para a incerteza, segundo a análise da CNN.
O discurso de Trump ocorre enquanto sua aprovação doméstica está baixa, às vésperas de eleições de meio de mandato cruciais, e enquanto seu governo continua envolvido em um conflito com o Irã. Funcionários dizem que ele pretende apresentar os Estados Unidos como mais poderosos e respeitados do que têm sido em anos. Também se espera que reivindique o crédito por promover a paz e enfrentar problemas que presidentes anteriores evitaram.
Essa confiança não é amplamente compartilhada no exterior. Canadá e países europeus estão trabalhando mais estreitamente para se proteger de um país que antes atuava como o principal garantidor de sua segurança. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, descreveu a mudança em Washington como uma tempestade que seu país não pode controlar.
Uma política externa construída em torno da pressão
A abordagem de Trump em seu segundo mandato trata a influência americana como uma ferramenta para obter vantagem imediata. Ameaças, tarifas e o possível uso da força militar tornaram-se intimamente ligados ao seu estilo pessoal e à sua busca por vantagens materiais para os Estados Unidos.
A CNN destaca o tratamento de Trump aos aliados e suas relações mais calorosas com líderes autoritários, incluindo Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia. Seu governo também reviveu uma visão abertamente imperial do Hemisfério Ocidental. Depois que Maduro foi derrubado na Venezuela, espera-se que o petróleo do país entre nas reservas americanas por meio de um acordo de 100 anos. Trump também acolheu Delcy Rodríguez, uma figura associada ao regime e que deve se reunir com ele durante a semana.
O aparente sucesso na Venezuela ajudou a alimentar a crença de que uma estratégia semelhante poderia derrotar o governo antiamericano do Irã. Em vez disso, o conflito se tornou mais uma guerra prolongada no Oriente Médio para Washington. Trump havia dito que ela terminaria em semanas, mas os combates se aproximam de seu oitavo mês. A sobrevivência contínua do Irã destacou os limites da força militar americana, mesmo após os danos infligidos ao país.
A guerra também expôs fragilidades práticas. Os interceptadores de mísseis americanos foram esgotados, enquanto um porta-aviões envelhecido se tornou um símbolo do peso imposto às forças americanas. A experiência iraniana se assemelha à lição que a Ucrânia transmitiu à Rússia: drones avançados e outras tecnologias modernas de campo de batalha podem impor custos severos a uma potência maior.
Alianças enfraquecidas pela desconfiança
Um governo americano tradicional poderia responder a ameaças compartilhadas formando coalizões. As campanhas tarifárias de Trump e suas exigências por maior soberania nacional, em vez disso, prejudicaram as alianças que anteriormente multiplicavam a influência de Washington. As parcerias transatlânticas e do Pacífico foram ainda mais tensionadas pelo aumento dos preços do petróleo, da gasolina e do diesel associado à guerra.
Os governos europeus agora estão levando os gastos com defesa mais a sério, criando um benefício estratégico que Trump pode reivindicar. Mas o caminho para esse resultado trouxe um alto custo político. Seu governo também incentivou movimentos populistas de direita que se opõem aos líderes europeus estabelecidos, aprofundando a desconfiança em relação a Washington.
O mesmo padrão aparece na disputa sobre a Groenlândia. Trump poderia ter garantido um novo acordo de defesa com o território sem ameaçar invadi-lo, informa a CNN. A Groenlândia faz parte da Dinamarca, um membro da Otan, o que torna a ameaça especialmente prejudicial à confiança nos Estados Unidos. Um político groenlandês comparou Washington a um poderoso cão de trenó que se voltou contra seu dono: depois que ele morde, é difícil restaurar a confiança.
Os apoiadores de Trump veem o colapso dos antigos acordos de outra forma. O movimento MAGA há muito se ressente dos aliados que mantinham generosos sistemas de bem-estar social enquanto dependiam do guarda-chuva de segurança americano. Sob essa perspectiva, obrigar a Europa a arcar com uma parcela maior dos custos de sua defesa é um sucesso, e não um fracasso diplomático.
Uma ruptura com causas mais profundas
O enfraquecimento da influência americana não começou com Trump. As guerras no Afeganistão e no Iraque consumiram trilhões de dólares, custaram a vida de milhares de jovens americanos e demonstraram os limites do poder aéreo. Elas também prejudicaram a sensação de domínio americano incontestado que se seguiu à Guerra Fria.
Outras pressões se desenvolveram de forma independente. A inteligência artificial está avançando com consequências potencialmente transformadoras. A hostilidade da Rússia em relação ao Ocidente tem raízes na derrota da União Soviética. A mudança climática é anterior a Trump, embora ele continue a rejeitá-la. Governos anteriores também adotaram políticas que fortaleceram inadvertidamente a China, inclusive por meio da dependência da tecnologia e da indústria americanas em relação a minerais de terras raras. Pequim explorou essa vulnerabilidade durante um confronto comercial ao restringir as exportações.
O que Trump mudou foi a direção e a velocidade da ruptura. Ele abandonou grande parte do consenso bipartidário de política externa que moldou a era pós-guerra e o substituiu por uma abordagem mais pessoal e transacional. A incerteza resultante está agora se tornando uma característica recorrente da política internacional, e não um desvio temporário.
A CNN cita o ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg descrevendo conversas com líderes estrangeiros que antes consideravam o primeiro mandato de Trump um episódio isolado, mas agora veem um padrão. Seus governos, disse ele, estão se preparando para um mundo no qual instituições e hábitos conhecidos talvez não retornem.
Trump não criou todas as crises que confrontam os Estados Unidos. Mas seu temperamento e suas escolhas estão alinhados com uma era em que as antigas estruturas estão falhando. Ao tratar os aliados como obstáculos e a força como um caminho para obter ganhos, ele pode estar acelerando justamente o declínio da influência americana que seus discursos insistem em dizer que não existe.