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Disputa pelo cargo de secretário-geral da ONU continua indefinida após terceira votação no Conselho

Uma terceira votação informal do Conselho de Segurança não conseguiu apontar um sucessor claro para António Guterres, levantando questões sobre o calendário e o rumo da disputa.

A corrida para substituir António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas continua totalmente em aberto, depois de uma terceira votação informal no Conselho de Segurança não ter identificado um candidato com apoio suficiente dos membros permanentes.

Os membros reuniram-se na sexta-feira para uma sondagem indicativa não vinculativa envolvendo oito candidatos. Os 15 representantes do Conselho classificaram cada concorrente como apoiado, rejeitado ou sem opinião. Os resultados divulgados por membros do Conselho mostraram que Rebeca Grynspan, da Costa Rica, continuava em primeiro lugar, com nove votos favoráveis. Carolyn Rodrigues Birkett, da Guiana, vinha em seguida, com oito.

Rafael Grossi, candidato da Argentina e chefe da Agência Internacional de Energia Atómica, recebeu oito votos desfavoráveis e cinco favoráveis. A sua posição enfraqueceu desde as primeiras rondas da disputa. Os outros candidatos também tiveram dificuldades para ganhar impulso.

Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, ex-alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos e ex-chefe da ONU Mulheres, registou um voto favorável contra 11 desfavoráveis. Ivonne A-Baki, diplomata equatoriana que entrou mais tarde na disputa, não recebeu nenhum apoio na sondagem.

A Geneva Solutions informa que os resultados intensificaram as especulações sobre a possibilidade de novos candidatos entrarem na disputa. A semana de alto nível da Assembleia Geral da ONU poderia dar aos aspirantes uma oportunidade de se reunirem com governos e fazerem lobby junto dos membros do Conselho de Segurança antes da próxima votação.

Uma disputa sem favorito inicial

Os resultados mais recentes contrastam com escolhas recentes de secretários-gerais, nas quais um candidato estabeleceu rapidamente uma vantagem. Guterres liderou todas as sondagens realizadas entre julho e o início de outubro de 2016. O seu antecessor, Ban Ki-moon, tornou-se o principal concorrente após quatro rondas e manteve-se consistentemente à frente depois disso.

Este ano, nem Grynspan nem Rodrigues Birkett assegurou uma posição incontestada. O resultado favorável de Grynspan mantém-na na disputa, mas a oposição à sua candidatura aumentou de um voto no início do processo para cinco. Rodrigues Birkett parece ter deixado de conquistar apoio, ao mesmo tempo que enfrenta uma resistência crescente, segundo Daniel Safran-Hon, analista independente que acompanha a campanha.

A incerteza é importante porque o Conselho de Segurança tem de recomendar um candidato à Assembleia Geral, e os cinco membros permanentes têm poder de veto. Um concorrente pode, portanto, precisar de mais do que um amplo apoio entre os membros eleitos do Conselho: também é crucial evitar uma oposição decisiva por parte dos cinco membros permanentes.

A Rússia já indicou que não está satisfeita com o atual grupo de candidatos. Kiril Logvinov, diretor para as organizações internacionais do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, afirmou numa entrevista publicada pela Interfax que Moscovo não tinha encontrado um candidato que cumprisse claramente os seus requisitos. Disse que os responsáveis russos se tinham reunido com todos os concorrentes e continuariam abertos à entrada de novos nomes na disputa antes do fim do ano.

Logvinov descreveu o secretário-geral que a Rússia prefere como alguém que honraria compromissos, permaneceria imparcial e resistiria à pressão dos países ocidentais. As posições dos outros membros permanentes eram menos evidentes antes da semana de alto nível da Assembleia Geral.

Mais tempo, mais candidatos e pressão crescente

Uma quarta sondagem indicativa tinha sido discutida para o último dia da semana de alto nível. No entanto, o resultado mais recente levou alguns observadores a defender que o Conselho deveria adiar outra votação caso novos concorrentes estejam prestes a entrar na disputa. Os novos candidatos precisariam de tempo para visitar capitais e apresentar os seus argumentos aos Estados-membros.

A ausência de um resultado claro também deixa os candidatos atuais a ponderar se devem continuar. Grossi era inicialmente considerado um forte concorrente, mas o seu apoio diminuiu. Entre os possíveis obstáculos mencionados na campanha estão a reivindicação renovada da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, o alinhamento dos votos de Buenos Aires com os Estados Unidos e Israel em algumas questões da ONU, a cidadania italiana de Grossi e a preferência manifestada em partes da comunidade da ONU por uma mulher para ocupar o cargo.

A associação pública de A-Baki com Donald Trump também pode ter trabalhado contra ela. Bachelet, por sua vez, indicou que não espera vencer, dizendo numa conferência no Chile que não se tornaria secretária-geral e descrevendo essa possibilidade como um alívio.

O mandato de Guterres termina em 31 de dezembro, aumentando a pressão para que o Conselho chegue a um acordo antes que a transição se torne urgente. Uma disputa prolongada poderia estender-se pelo outono e potencialmente para além do início do novo ano.

O próximo secretário-geral herdará uma agenda ampla e difícil. Em declarações antes da semana de alto nível, Guterres destacou os riscos e as oportunidades colocados pela inteligência artificial, a necessidade de reduzir a violência no Médio Oriente enquanto se procura uma solução de dois Estados para israelitas e palestinianos, e a exigência de um cessar-fogo imediato na Ucrânia.

As expectativas do público acrescentarão outro desafio. Um inquérito da UN Foundation realizado em 20 países concluiu que a organização continua a gozar de confiança geral, mas que muitas pessoas querem mudanças visíveis. A maioria dos inquiridos sabia pouco sobre os candidatos, enquanto seis em cada dez disseram preferir que a primeira mulher liderasse a ONU. A escolha final será, portanto, avaliada não só pelos governos, mas também pela capacidade do novo líder de fazer com que o trabalho da organização pareça relevante na vida quotidiana das pessoas.

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