Filip Hrgovic derrotou Moses Itauma, de 21 anos, aos 2:27 do nono round, no sábado, na lotada O2 Arena de Londres, conquistando o título dos pesos-pesados da IBF, que estava vago, e tornando-se o primeiro campeão mundial dos pesos-pesados da Croácia. O resultado contrariou todas as expectativas que acompanhavam o britânico até o ringue. Itauma entrou com cartel de 14-0 e 12 nocautes, favorito por 9-1 e em busca do segundo cinturão mais jovem dos pesos-pesados depois de Mike Tyson. Ele derrubou Hrgovic, de 34 anos (21-1, 16 KOs), no segundo round e venceu os assaltos iniciais. Nunca havia passado do sexto. No nono, estava cambaleando. O treinador Ben Davison jogou a toalha enquanto o árbitro Howard Foster interrompia a luta. Itauma deixou a arena em uma maca. O promotor Frank Warren citou uma lesão na perna nos rounds finais. Hrgovic, que disse ter sido “superado no boxe”, afirmou no ringue: “Eu sou o presente. Ele é definitivamente o futuro.”
Essa frase resume toda a noite. O favorito deveria ser o futuro chegando mais cedo. O veterano deveria ser o obstáculo. O obstáculo tornou-se o campeão. O futuro deixou a arena em uma maca.
Uma O2 lotada e um cinturão vago da IBF
A O2 Arena de Londres estava lotada no sábado para a disputa do título dos pesos-pesados da IBF, que estava vago. Cinturões vagos atraem um público específico: pessoas que querem ver uma linhagem começar, não apenas continuar. Não havia um campeão para destronar no sentido habitual. Havia um cinturão sem dono e dois homens querendo ser os primeiros a usá-lo neste ciclo. Um tinha 21 anos. O outro, 34. A diferença de idade é o enredo.
Itauma é britânico. Arenas locais amplificam os favoritos. Um favorito por 9-1 em Londres, em um estádio sem assentos vazios, disputando um pedaço da história que apenas Mike Tyson havia alcançado mais jovem, é o mais próximo que o boxe chega de um roteiro de coroação. Ser o segundo campeão dos pesos-pesados mais jovem depois de Tyson não é um comentário casual. É o tipo de marca que acompanha um lutador pelo resto da carreira se ele a conquista — e por muito tempo se não conseguir. O sábado deveria ser a noite em que essa marca ficaria ligada a Itauma.
Hrgovic chegou como o outro nome do cartaz pelo título vago: mais velho, já com cartel de 21-1 e 16 nocautes, um peso-pesado croata que ainda não havia se tornado campeão mundial. A Croácia nunca tivera um campeão mundial dos pesos-pesados. Esse fato ficava ao fundo da divulgação, fácil de tratar como detalhe até se tornar a manchete.
O título dos pesos-pesados da IBF não é um troféu regional. É um campeonato mundial na divisão que ainda organiza o topo da montanha do esporte. Derrotar por nocaute técnico um favorito invicto de 21 anos por esse cinturão, em Londres, diante de uma O2 lotada, é a forma de um lutador de 34 anos entrar para a história como o primeiro de seu país. Hrgovic não venceu por decisão em um ginásio silencioso. Ele derrotou Itauma aos 2:27 do nono round, com o público vendo o favorito passar do controle inicial à toalha no ringue.
O favorito por 9-1 que nunca havia passado do sexto
Itauma entrou com cartel de 14-0 e 12 nocautes. Esses números descrevem um finalizador. Doze interrupções em 14 vitórias é uma proporção que acostuma o público a esperar um desfecho antes da distância. Também acostuma o corpo de um jovem peso-pesado a um certo tipo de noite: explosiva, precoce, conclusiva. O outro número que importava no sábado era o que não aparecia no cartel. Ele nunca havia passado do sexto.
Nunca ter passado do sexto, contra um homem de 34 anos que chegava com cartel de 21-1 e 16 nocautes, em uma luta programada pelo título mundial vago, é um problema estrutural escondido dentro de um vídeo de melhores momentos. Nocautes nos rounds iniciais não ensinam um lutador como é o oitavo. Não ensinam como é o nono quando o tanque está vazio e o outro homem continua ali. Ensinam que as noites terminam quando ele decide que terminam. No sábado, a noite não terminou quando ele decidiu.
A cotação de 9-1 dizia que o mercado concordava com o cartel. Favoritos nessa faixa não deveriam precisar de uma lição nos rounds finais. Deveriam ser eles a ministrá-la. Itauma buscava uma marca que apenas Tyson havia alcançado mais jovem. O britânico era o futuro no presente, em casa, invicto, nocauteador e favorito por 9-1. Hrgovic era a tarefa do veterano: 34 anos, já carregando uma derrota no cartel, ali para ser o nome que um jovem campeão venceria a caminho do restante da divisão.
Os rounds iniciais seguiram o roteiro comprado pelas cotações.
Segundo round: o britânico derruba o lutador de 34 anos
O britânico derrubou Hrgovic, de 34 anos, no segundo round. Uma queda no segundo assalto de uma luta por título vago, aplicada pelo favorito de 21 anos ao lutador de 34, é o momento em que uma O2 lotada decide que está assistindo à coroação pela qual pagou. Hrgovic caiu. Itauma, com cartel de 14-0 e 12 nocautes, havia feito aquilo que seu cartel indicava: colocado cedo o outro homem na lona.
Ele venceu os rounds iniciais. Isso não é uma ressalva educada. Ele os venceu. Derrubou Hrgovic no segundo e levou os assaltos seguintes da forma como um favorito deveria levá-los. Para um lutador que nunca havia passado do sexto, os rounds iniciais eram todo o mundo conhecido. Ele vivia nesse mundo e o dominava.
O cartel de Hrgovic na entrada era de 21-1, com 16 nocautes. Um homem com 16 nocautes não é, por profissão, uma estátua resistente. É um pegador que já encerrou noites. Ser derrubado no segundo round, em Londres, contra um favorito por 9-1, é o tipo de buraco que engole veteranos que já chegaram a 21-1 e não deveriam se tornar os primeiros campeões de qualquer coisa da Croácia. A queda foi real. Os rounds iniciais foram de Itauma. A noite ainda era jovem da única forma que acabaria importando: ainda não havia passado do sexto.
O que os rounds iniciais não fizeram foi encerrar a luta. Hrgovic se levantou. O título dos pesos-pesados da IBF continuava vago. A O2 continuava lotada. O jovem de 21 anos havia conseguido a queda, vencido os rounds iniciais e ainda precisava continuar fazendo isso até uma distância que nunca havia alcançado.
Um uppercut do quinto round, em cheio, e Hrgovic segue em frente
Um uppercut do quinto round entrou em cheio. No boxe dos pesos-pesados, um uppercut limpo no quinto costuma ser o golpe que transforma uma queda inicial em interrupção. É o golpe que encontra um homem que já caiu e encerra a discussão. Itauma o desferiu. Ele entrou em cheio.
Hrgovic absorveu o golpe e seguiu em frente.
Essa é a virada da qual o restante da noite depende. Não a queda no segundo round, que o favorito deveria conseguir. Não os rounds iniciais, que o lutador cotado em 9-1 deveria vencer. O uppercut do quinto, que entrou em cheio, e o fato de o lutador de 34 anos ter seguido em frente apesar dele, são o momento em que a distância nunca percorrida por Itauma começou a se tornar a história. Um lutador que nunca havia passado do sexto tem um quinto round. Ele não necessariamente tem uma resposta para um homem que absorve o uppercut limpo e continua à sua frente.
Seguir em frente depois de absorver um uppercut limpo não é o mesmo que não ser atingido. Hrgovic foi atingido. O golpe entrou em cheio. Mesmo assim, ele avançou. Para um jovem de 21 anos que finaliza adversários — 12 nocautes em 14 vitórias —, um golpe que entra em cheio e não encerra a noite é um novo tipo de informação. Ela chega no quinto, um round antes do ponto mais distante a que ele havia chegado, com os assaltos finais ainda pela frente e um croata que havia caído no segundo continuando a avançar.
O cinturão vago não se importa com quem venceu os rounds iniciais se os rounds finais pertencerem a outra pessoa. O uppercut do quinto deveria ser a ponte entre o controle inicial e a interrupção. Hrgovic transformou-o em uma ponte para a segunda metade de uma luta que Itauma nunca havia disputado.
O oitavo: o tanque esvazia
Itauma esvaziou o tanque no oitavo.
Ele nunca havia passado do sexto. O oitavo fica dois rounds além dessa fronteira. Esvaziar o tanque no oitavo, depois de vencer os rounds iniciais, depois de derrubar o adversário no segundo, depois de acertar um uppercut limpo no quinto que não encerrou o trabalho, é o que acontece ao corpo de um jovem nocauteador quando a noite se recusa a terminar no horário habitual. O combustível que produz 12 interrupções em 14 lutas é finito. Ele é gasto no esforço de derrubar um homem de 34 anos, de vencer aqueles rounds iniciais e de lançar o uppercut que entrou em cheio. Quando o outro homem absorve o golpe, o tanque não se enche novamente. Ele esvazia.
O oitavo round é onde uma luta pelo título dos pesos-pesados da IBF deixa de ser um destaque de prospecto e se torna a distância de um veterano. Hrgovic tinha 34 anos. Seu cartel era de 21-1, com 16 nocautes. Ele havia sido derrubado e superado no boxe, segundo suas próprias palavras. Continuava ali no oitavo, em uma O2 lotada, enquanto o tanque do favorito britânico se esvaziava diante de uma torcida que tinha vindo ver o segundo campeão dos pesos-pesados mais jovem depois de Tyson.
Esvaziar o tanque não é uma escolha tática. É o que acontece quando um lutador que nunca havia passado do sexto continua golpeando no oitavo como se o sexto fosse o horizonte. O favorito havia feito o trabalho duro no início. Não havia guardado nada para os rounds que nunca havia visitado. Hrgovic, que havia absorvido o uppercut do quinto, estava em posição para receber um nono round que o jovem de 21 anos já não conseguia dominar.
Nono round, 2:27: a toalha, o árbitro e a maca
No nono, ele estava cambaleando. Essa é a frase que acompanha um tanque esvaziado com a mesma certeza com que uma queda acompanha um golpe limpo. Itauma, de 21 anos, com cartel de 14-0 e 12 nocautes no início da noite, estava cambaleando no nono round em Londres. O favorito por 9-1 já não vencia os rounds iniciais. Já não era o homem que havia derrubado Hrgovic no segundo. Era um lutador que havia passado do sexto, passado do oitavo e passado do ponto em que ainda conseguia responder.
O treinador Ben Davison jogou a toalha enquanto o árbitro Howard Foster interrompia a luta. A interrupção foi oficial aos 2:27 do nono round. Duas pessoas encerraram a luta no mesmo movimento: o treinador que viu o suficiente de seu lutador cambaleando e o árbitro que a interrompeu quando a toalha entrou. É assim que um título dos pesos-pesados da IBF muda de mãos sem uma decisão dos jurados. Hrgovic derrotou Itauma. A Croácia teve seu primeiro campeão mundial dos pesos-pesados.
Itauma deixou a arena em uma maca. A imagem é o oposto da coroação que a cotação de 9-1 sugeria. Um jovem peso-pesado britânico em busca de se juntar a Tyson na lista de idade e cinturão não deveria deixar uma O2 lotada em uma maca na história que o público comprou. Deveria sair com um cinturão. No sábado, a maca foi o último meio de transporte usado pelo favorito na arena.
O promotor Frank Warren citou uma lesão na perna nos rounds finais. Esse é o relato do promotor sobre o que contribuiu para o colapso nos rounds finais: uma lesão na perna, ocorrida tarde. Ela se soma aos outros fatos dos assaltos finais sem substituí-los. Itauma nunca havia passado do sexto. Esvaziou o tanque no oitavo. No nono, estava cambaleando. Davison jogou a toalha. Foster interrompeu a luta aos 2:27. A maca veio depois. A menção de Warren a uma lesão na perna nos rounds finais faz parte do registro da noite, não substitui a interrupção.
O título vago deixou de estar vago. Hrgovic, de 34 anos, que entrou com cartel de 21-1 e 16 nocautes, conquistou-o por interrupção contra um jovem de 21 anos que o havia derrubado, superado no boxe e depois ficara sem a luta que nunca precisara levar até o fim.
“Eu sou o presente. Ele é definitivamente o futuro.”
Hrgovic disse que havia sido “superado no boxe”. A frase não é uma comemoração. É a admissão do novo campeão de que os rounds iniciais, e o boxe praticado neles, pertenceram a Itauma. O britânico o derrubou no segundo round. O britânico venceu os rounds iniciais. Um uppercut do quinto entrou em cheio. Um homem que diz ter sido superado no boxe está descrevendo esse trecho, não inventando uma luta diferente. O lutador de 34 anos não afirmou ter sido o melhor boxeador desde o primeiro gongo. Afirmou ter conquistado o final.
Ele disse no ringue: “Eu sou o presente. Ele é definitivamente o futuro.”
A frase divide a noite em dois tempos e dá um deles a cada homem. Hrgovic é o presente: o primeiro campeão mundial dos pesos-pesados da Croácia, dono do cinturão da IBF que estava vago quando o sábado começou, vencedor por interrupção aos 2:27 do nono round em uma O2 Arena lotada, em Londres. Itauma é definitivamente o futuro: tem 21 anos, continua sendo o lutador que entrou com cartel de 14-0 e 12 nocautes, continua sendo o homem que era favorito por 9-1 em busca do segundo cinturão mais jovem dos pesos-pesados depois de Mike Tyson, continua sendo o britânico que podia derrubar um homem de 34 anos no segundo round e vencer os assaltos seguintes. O presente é um título. O futuro, nesta noite, deixou a arena em uma maca, com a toalha do treinador como último argumento.
Essa definição é generosa vinda de um homem que acabara de ser o obstáculo. Também é precisa diante dos fatos que sobreviveram à interrupção. Nada na idade de Itauma mudou aos 2:27 do nono. Nada na idade de Hrgovic mudou. O cinturão vago mudou de dono. O favorito por 9-1 não se tornou um ex-prospecto; tornou-se um jovem de 21 anos que nunca havia passado do sexto e então passou — e depois foi derrotado. A toalha de Davison e o gesto de Foster tornaram o presente oficial. A observação de Warren sobre uma lesão na perna nos rounds finais acrescentou uma ressalva médica à saída do futuro.
A Croácia nunca tivera um campeão mundial dos pesos-pesados. Hrgovic é o primeiro. Tem 34 anos. Foi derrubado no segundo round. Foi superado no boxe, segundo suas próprias palavras. Absorveu um uppercut do quinto que entrou em cheio. Continuava ali quando o tanque esvaziou no oitavo e quando o nono chegou aos 2:27. O título dos pesos-pesados da IBF é dele. A O2 lotada viu a coroação de um favorito se transformar no primeiro título nacional de um veterano.
O presente, como Hrgovic o definiu no ringue, é o homem que encerrou a luta. O futuro, como ele o definiu na mesma frase, é o jovem de 21 anos que o fez admitir ter sido superado no boxe. O boxe raramente entrega as duas frases ao vencedor na mesma noite. No sábado, na O2, depois de uma queda, um uppercut limpo, um tanque esvaziado, uma toalha, o gesto de um árbitro e uma maca, as duas frases eram verdadeiras ao mesmo tempo.